Por que Rezar Todos os Dias ?


Um problema muito recorrente e não menos fundamental na vida espiritual de todas as pessoas é a questão da oração diária. Reportamo-nos à chamada oração íntima ou mental, e não às práticas de devoção que, embora tenham, sim, a sua importância, são de certo modo “secundárias”, só adquirindo todo o seu valor quando estão unidas a uma vida de trato íntimo e pessoal com Jesus Cristo.

A oração mental diária é, com efeito, o “pão nosso de cada dia” mencionado no Pai-Nosso. A sua importância para a vida do espírito é tão crucial quanto comer e beber o são para a vida do corpo. Sem ela, a nossa alma definha como um organismo desnutrido, sem energias para amar e, portanto, crescer em virtude e santidade.

Ao transmitir o Pai-Nosso aos discípulos, Jesus ensinou-nos a pedir, em primeiro lugar, a glória de Deus: “Santificado seja o vosso nome”. Em seguida, mandou-nos rezar pela nossa própria santidade: “Venha a nós o vosso reino”. No entanto, para que isso aconteça, é preciso fazer o que Ele nos manda: “Seja feita a vossa vontade”. Ora, nós só poderemos cumprir a vontade de Deus se tivermos energias para tanto. É por isso que o Senhor nos ensina a pedir logo em seguida “o pão nosso de cada dia”, ou seja, o sustento necessário para levarmos a cabo o que Deus espera de nós e, assim, termos aquela santidade de verdadeiros filhos seus.

O texto grego do Pai-Nosso, é verdade, não traz a expressão “de cada dia”, traduzida às vezes como “cotidiano”. O termo ali empregado é ἄρτος ἐπιούσιος, isto é, “pão substancial”, cujo sentido é de pão ou alimento necessário para um dia de jornada. Isso significa, em outras palavras, que a cada dia de trabalho corresponde um tipo de alimento, ou seja, o sustento para este ou aquele dia de atividades. O pão de hoje é só para hoje, à semelhança do maná com que o Senhor alimentara o povo escolhido em sua travessia pelo deserto.

Deus quer, para o nosso próprio bem, que dependamos dele sempre e lhe peçamos todos os dias as graças de que precisamos para cumprir, aqui e agora, o que nos cabe fazer. Isso implica, na prática, que temos de rezar todos os dias, porque todos os dias Deus nos pede algo e nos chama a progredir no caminho da santidade.

A vida espiritual só funciona se for alimentada dia após dia. De nada adianta fazer um belo retiro mensal para depois, uma vez de volta à rotina, abandonar a oração e os propósitos feitos. Quem agisse dessa maneira, tratando a vida cristã como algo pontual e quase extraordinário, se comportaria como o filho pródigo. Em vez de depender do pai diariamente, pedindo-lhe com confiança o necessário para cada momento, aquele filho insensato quis matá-lo antes do tempo, pedindo a parte que lhe cabia da herança. O resultado disso é conhecido de todos: ele virou as costas para o pai, gastou à larga o que recebera e, no fim das contas, acabou sem nada, invejando a comida dada aos porcos.

Muitos, infelizmente, assumem essa postura preguiçosa (no fundo, de soberba autossuficiência) e, como não poderia deixar de ser, terminam ou perdendo a esperança de uma vida santa e conforme os Mandamentos ou achando que Deus, visto por eles como um “injusto”, os abandonou. Nem lhes passa pela cabeça que a culpa por suas quedas, fraquezas e fracassos reside neles mesmos, na sua pretensão de achar que, sem pedir todos os dias as graças de que necessitam, tudo estaria magicamente resolvido.

Uma vida cristã, para ser séria e profunda, tem de ser uma vida de oração, e oração diária, conforme o tempo de que cada um dispuser. Sem isso, poderemos até parecer “bonzinhos” aos olhos de muitos, mas jamais alcançaremos, auxiliados pela graça que a Deus devemos pedir cotidianamente, aquela perfeição da caridade sem a qual a nossa passagem nesta terra se torna projeto frustrado e sem sentido.

Convençamo-nos logo de que quem não pede, não recebe. E quem não pede a Deus todos os dias a graça que cada dia reclama, acaba espiritualmente anêmico, pois a oração, não custa repetir, é o alimento da alma: assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento, assim, sem a oração, não se pode conservar a vida da alma. E se nos preocupamos em alimentar o corpo todos os dias, por que esquecemos, afinal, o cuidado de nossa alma, que vale muitíssimo mais do que o corpo ? ¿ ?

Paz e Bem ! ! !

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